O mundo dos videogames ficou um pouco mais silencioso.
Morreu aos 77 anos Hideki Sato, o homem que ajudou a desenhar — literalmente — alguns dos consoles mais importantes da história da indústria. A informação foi divulgada pelo site japonês Beep21, com repercussão internacional. Sato não foi apenas um executivo da Sega. Ele foi o arquiteto visual e técnico por trás de uma era.
Estamos falando do responsável pelo design de máquinas como o Master System, o lendário Mega Drive (conhecido como Genesis na América do Norte), além do Sega Saturn e do visionário Dreamcast.
Se você cresceu nos anos 80 ou 90, é bem provável que alguma memória sua esteja ligada a algo que passou pelas mãos dele.
O homem que deu forma à ambição da Sega
Hideki Sato entrou para a Sega quando a empresa ainda estava construindo sua identidade fora dos arcades. Em entrevistas históricas, como a concedida à Famitsu, ele chegou a admitir que a equipe sabia fazer jogos de fliperama, mas não dominava o universo dos consoles domésticos.
Ainda assim, a ousadia falou mais alto.
Após trabalhar no SG-1000 e no Master System, Sato assumiu o comando do departamento de Pesquisa e Desenvolvimento em 1989. A missão era simples de falar e quase impossível de cumprir: enfrentar a Nintendo, que dominava o mercado com o NES.
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Era Davi contra Golias. Só que com chips de silício.
O Mega Drive: elegância, poder e identidade
Quando a geração 16-bits chegou, Hideki Sato teve uma ideia clara: o novo console da Sega precisava transmitir sofisticação. Não seria apenas uma caixa de plástico para rodar jogos — ele deveria parecer um equipamento de som de alta qualidade.
Daí veio o design arredondado, preto, com letras douradas. Um visual elegante, moderno, quase luxuoso para a época. Segundo o próprio Sato, aquela impressão dourada era cara — mas fazia parte da mensagem que a Sega queria passar.
O resultado foi o Mega Drive.
Lançado antes do Super Nintendo, ele conquistou mercado, identidade e, pouco depois, ganhou seu mascote definitivo: Sonic the Hedgehog. A combinação de hardware potente, marketing agressivo e jogos marcantes colocou a Sega em pé de igualdade com a Nintendo por um período que até hoje é lembrado como uma das maiores rivalidades da história dos videogames.
Sato não criou apenas um console. Ele ajudou a criar uma atitude.
Saturn e Dreamcast: ousadia até o fim
Nem todos os projetos posteriores alcançaram o mesmo sucesso comercial.
O Sega Saturn foi ambicioso, tecnicamente complexo e com dificuldades estratégicas no mercado ocidental. Já o Dreamcast foi visionário demais para seu tempo, apostando em internet, jogos online e recursos que só se tornariam padrão anos depois.
Mesmo assim, ambos carregavam a marca de Sato: identidade forte, design marcante e a tentativa constante de empurrar a indústria para frente.
O Dreamcast, especialmente, é lembrado hoje com carinho quase cult. Ele pode não ter vencido a geração, mas antecipou o futuro.
Mais do que hardware
Hideki Sato também foi presidente da Sega em um momento delicado da empresa. Ele não era apenas engenheiro ou designer — era um estrategista que entendia que videogame é cultura, não apenas tecnologia.
Sua fala em entrevista à Famitsu resume muito do espírito da época: o sucesso inesperado deixou a equipe deslumbrada. Era um tempo de experimentação, risco e ambição.
Hoje a indústria é gigantesca, corporativa, globalizada. Naquele tempo, era feita por pessoas que estavam descobrindo o caminho enquanto andavam.
Sato foi uma dessas pessoas.
Uma geração marcada por plástico, silício e sonhos
ara milhões de jogadores, o primeiro contato com o Mega Drive significou algo maior do que gráficos melhores. Representava velocidade, som marcante, jogos mais “radicais”, uma sensação de modernidade.
O console era objeto de desejo. Era símbolo.
E isso não acontece por acaso. Existe pensamento por trás do formato, do botão, do encaixe do cartucho, da textura do plástico.
Quando seguramos um controle de três botões do Mega Drive, estamos tocando em decisões de design feitas por alguém que pensava no futuro da experiência doméstica.
Esse alguém era Hideki Sato.
Uma despedida que ecoa na memória dos jogadores
Curiosamente, a Sega também perdeu recentemente outro de seus nomes históricos, David Rosen, cofundador da empresa. É como se uma geração inteira de pioneiros estivesse encerrando seu ciclo.
Mas o legado permanece.
Cada vez que alguém conecta um Mega Drive clássico, cada vez que um colecionador limpa cuidadosamente um Saturn, cada vez que um Dreamcast é ligado para mais uma partida de Crazy Taxi ou Shenmue, existe ali um pedaço da visão de Sato.
Ele ajudou a construir o formato do entretenimento que hoje movimenta bilhões.
E fez isso numa época em que tudo ainda estava sendo inventado.
Obrigado, Hideki Sato
Hideki Sato não foi o rosto estampado nas campanhas. Não foi o mascote correndo em alta velocidade. Não foi o compositor da trilha sonora.
Ele foi o arquiteto silencioso.
O engenheiro que transformou ambição em objeto físico.
O homem que ajudou a desenhar uma das maiores rivalidades da história dos videogames.
Aos 77 anos, ele parte deixando uma herança que cabe na estante, no rack da sala, no coração de quem viveu aquela época.
E enquanto houver alguém soprando cartucho, limpando contato com cotonete ou debatendo qual geração foi melhor, o nome dele continuará ecoando.
Descanse em paz, Hideki Sato.
Seu legado continua ligado.
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